Gostava de eliminar o acessório.

Enquadrar na perfeição todas as paisagens, ser sempre vista do melhor ângulo, dizer sempre nas altura certa a frase perfeita e terminal que irá assombrar existências. Como nos filmes, os bons, em que tudo fluí, nada está a mais. Eliminar os tempos mortos em que me arrasto no sofá, as horas de televisão, o tempo nas filas dos correios ou do banco, as eternidades de vida em “stand-by”, em que espero ou penso noutra coisa.

Ser por vezes um drama, mas de irrepreensível bom gosto e intensidade, uma boa comédia a seguir para descomprimir, um filme de aventuras para me exercitar, uma epopeia para me engrandecer quando a insegurança assombrar.

Gostava que o que vejo fosse sempre a perspectiva perfeita de cada coisa, que o meu olhar focasse apenas a beleza, o plano inesperado em que a mais comuns das ruas ganha aquela luz especial que a grava na memória.

Limar as arestas aborrecidas, os maus ângulos das pessoas que me rodeiam, repetir uma ou outra cena passada a ver se desta saía melhor e remeter os erros, as frases erradas para o fim do genérico como apanhados que ninguém vê.

(Isto ao ver o “Manhattan” do Woody Allen e depois de me interrogar porque é todos os diálogos da minha vida não são todos assim tão irónicos, incisivos e deconcertantes, e se seria possível a um domingo à tarde numa ponte de Nova York estar tão pouco trânsito que o carro do Yale era o único no ecrã.)

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