“Epitaph for my heart”*Bebia muito e muito forte, nada de misturas nem “cocktails” da moda. Bebidas puras e transparentes directamente do frigorífico que só alojava líquidos.

Falava muito e muito alto. Tudo o que pensava mesmo que em segundos se contradissesse. Fazia amigos de circunstância em todo o lado, o seu encanto bruto e puro atingia todo o espectro humano.

Fodia muito e muito bem. Com as mulheres mais estranhas que encontrasse pelo caminho. Apaixonava-se com a força e a brevidade de um furacão. Nunca precisou de iludir ninguém, preferindo as que as outras, com rancor, chamavam putas e que ele sabia serem apenas a sua versão de saias. Preferia os gatos aos cães e abominava trelas e gaiolas. Só o movia o inesperado e só conseguia agradar a quem não esperava nada dele.

Comia muito, sempre fora de casa e ria com alarido dos conselhos médicos. Fumava tudo o que fosse fumável, não exigindo nenhum cubanismo aos charutos nem laivos de cowboiada aos cigarros. Arrancava com desprezo e enfado o filtro a qualquer cigarro que lhe atravessasse o caminho. Engordou rápida e orgulhosamente, ganhando em proporção um brilho de contentamento de quem ia engolindo e saboreando o mundo. Nunca praticou um único desporto de grupo, tendo percorrido a pé, apenas pelo desafio, os Andes e tentado sem sucesso atravessar a nado o Canal da Mancha.

Só jogava jogos de azar, desprezando tudo o que, na vida, dependesse de estratégia. Conduzia tão rápido quanto conseguia e só parava para dormir. O estritamente essencial, precisando, mesmo para essas escassas horas, de auxiliares químicos dos mais fortes. Lia tudo o que conseguia, o olhar percorria as páginas a um ritmo irreal e bebia dos autores de eleição a beleza que lhe permitia enfrentar tristezas esporádicas mas profundas.

Dos sete pecados capitais permaneceu virgem à inveja e à avareza tendo-se embriagado com os restantes. De encontro a todas as previsões não durou muito. Ainda está na encruzilhada entre o céu e o inferno, à espera de saber se irá humanizar o primeiro ou denegrir o segundo. Deixou nos que o conheceram a muito ligeira sensação de terem pousado as pontas dos dedos na cauda do Diabo e de terem beijado a movimentos de pestana a sombra de Deus.

*Título roubado a uma canção dos Magnetic Fields. Stephen: Pá, se ficaste zangado infelizmente não vais poder ralhar comigo a 20 de Outubro em Lisboa. Vou estar exilada numa ilha cinzenta.

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Filed under Ilusões que salvam

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