As velhinhas da aldeia, que ao fim da tarde sempre se reuniam nas escadas toscas e musguentas da pequena igreja, benziam-se à sua passagem. Ficava triste, o luto delas e as suas mãos outonais lembravam-lhe a avó. Queria, por isso, agradar-lhes. Percorria a rua da igreja a pensar em esquemas, presentes, conversas que as fizessem gostar dela. Nem via o Zé do Café Central que lhe acenava e de tão concentrada nas suas intenções nunca reparou na minúscula vista do triângulo verde de serra entre a esquina da mercearia e a sua casa. Mas esquecia tudo assim que entrava em casa e os encontrava. Sempre cansados do trabalho agrícola, a que se começavam a habituar muito lentamente, sorriam-lhe do sofá entre mantas e botas lamacentas. Faziam juntos o jantar com produtos da horta. Já sabiam que tudo tinha de ser bem lavado de terra e minhocas, coisas que antes nunca lhes ocorrera estarem associadas às couves. Bebiam café no terraço em silêncio e em silêncio fumavam o último cigarro do dia. Um deles arrumava a casa enquanto os outros dois verificavam as trancas da porta e do gado. Inspiravam a sorrir a mistura de lareira, mato e broas a que a aldeia cheirava nessa altura do ano e deitavam-se. Enroscavam-se os três e ternamente conversavam até adormecer, as mãos e as pernas enroladas, os lábios em feitio de segredo. Só na próxima tarde ela se voltaria a sentir tentada a agradar às velhinhas que se benziam à sua passagem.

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Filed under Ilusões que salvam

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