Cheiros…

…entre as páginas da leitura atrasada de um suplemento do jornal de Domingo*.

Nada nos toca no fundo da memória como os cheiros, todos o sabemos ou descobrimos se pensarmos um bocado nisso. Uma música transporta-nos para cenários difusos, um objecto faz-nos nascer um sorriso parvinho, mas os cheiros, os cheiros teletransportam-nos. São a máquina do tempo, não precisamos de mais nenhuma geringonça com botões e físicas complicadas para voltar a fungar a manga da camisola entre o baloiço e o toque de entrada. Só de um nariz e de uma vida.

E entre as páginas da leitura atrasada do jornal de Domingo encontrei alguém a cronicar sobre isto. Encontrei entre uma citaçao de Proust (linda) a evocar o cheiro de bolo embebido em chá, a informação de que existe um prémio literário para a melhor descrição de um cheiro (Jasmine Awards) e o inevitável Freud a relacionar nariz e sexo, as curisidades científicas a dar um ar profissional à coisa: o olfacto é o único sentido molecular. Visão e audição penetram o nosso cérebro com ondas. O cheiro é molecular, e por isso, muito específico e muito mais profundo que os outros sentidos. Quem delira com o cheiro relva acabada de cortar (relacionado nas profundezas da nossa cabecinha dada ao prazer com tardes preguiçosas e solarengas) pode agradecer ao 3E-hexamel e ao enzima que o origina quando a relva é cortada e a sua seiva exposta ao ar. Ah, e a parte do cérebro que porcessa os cheiros está mesmo ao lado da que lida com a memória.

Esta especificidade do olfacto e esta vizinhança cerebral coma memória faz com eu ao cheirar Boucheron seja transportada para o Verão em que a minha mãe usou intensivamente esse perfume e para parágrafos inteirinhos dos “Cinco” que eu andava a devorar na altura. E isto funciona ao contrário, juro. Ainda hoje a mexer numa coisa que parecia uma balança antiga me lembrei automaticamente de uma que os meu avós tinham numa arrumação. O laboratório começou a cheirar intstantaneamente à mistura de batatas e coisa que se pões nas batatas para elas não grelarem. Era isso que existia na arrumação dos meus avós, lado a lado com a balança.

É bom ter sentidos e memórias.

*O ABC, a crónica “Notes and theories” do Stephen Bailey, este fim-de-semana.

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