27(2) – Inventário de tanto/tão pouco

Retenho da vida Pedacinhos pequeninos de beleza adormecida Que têm de ser chocalhados Transformados para se revelar Purpurinas douradas do Carnaval mais banal Duma qualquer Lolita de trazer por Casa Pedacinhos de morder gomas ácidas fluorescentes Tão ácidas como petazetas Polaroids envelhecidas com cabeças cortadas e Sorrisos Que nunca mais vou ver nascer Fotografias mal tiradas que o talento é pouco A que acrescento comentários cómicos ou ternurentos E que aprisiono em álbuns escondidos Que com o passar do tempo se tornam Bolorentos Objectos de plástico De cores berrantes e utilidade Misteriosa Alguns foram brindes de chocolates infantis Outros pechinchas de brique-a-braque Mil ervinhas diferentes No mesmo boião Onde as propriedades se confundem E onde um dia a tília Se tornará estimulante Pedrinhas erodidas e conchinhas partidas da beira-mar na maré mais baixa Aprisionados em tacinhas de vidro liso muito Transparente Pedacinhos de madrepérola rasgados e secos Presos em fio de pesca para bloquear as moscas Momentos imperfeitos, incompletos de tão reais Que recorto e reconstruo no estúdio da memoriam E que recordo com estrutura ilusória e definida Inspirada noutras vidas noutros gestos Talvez até no cinema ou num episódio feliz da mais recente novela das oito papelinhos escritos por pessoas meio difusas cujo nome ecoa incerto num canto remoto da minha cabeça Momentos e gestos ínfimos Sequências mágicas, instantes perfeitos Aqueles dias, aquelas noitesEm que tudo o que acontece é tão natural e Bonito Aqueles dias, aquelas noites em que mesmo Sabendo que tudo está a mudar Nos deixamos invadir pela Apatia Aqueles rostos que não me largam e nem sonham Aquelas mãos tão grandes e quentes que um dia Me contiveram Aqueles olhos anónimos que um dia me fizeram Chorar Equilibristas trapézios que me fizeram nascer As cores fortes daquele quadro que me faz sorrir Os primeiros acordes da música que mais gosto de ouvir Orquídeas raras carnívoras e malmequeres O amanhecer inesperado quando a noite passou sem pesar A forma como o tempo saltita com as pessoas que gosto de conversar As nossas noites ao relento a refilar do frio e o amanhecer à beira-mergulho Que se lhes seguiu O cansaço bom depois de nos consumirmos Com a sede típica de quem ama muito A organização caótica em que disponho o que é meu o ritmo aos arranques com que trabalho e vivo s teus olhos que às vezes estão quase a chorar nunca mas nunca os vi de tristeza são verdes tão verdes como musgo de natal grandes tão grandes que nunca vão ver mal sorriso mais lindo numa foto recente e uma pessoa antiga que me moldou a vida sua assinatura aprendida a ferros e tremida paladares quentes que sabem a lareira calma confortante de um chá feminino e familiar onde numa ponta da mesa está a prima mais nova E na outra a avó babosa

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Filed under Ilusões que salvam

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