Saudades dela

Assim se aproximou do fim, entre pesadelos com a mãe louca e rotações impossíveis de espaços. Procurava na porta da rua a cozinha, na janela o armário dos cristais. No armário dos cristais, um suposto espelho devolvia-lhe uma imagem polida a sépia de tardes de brincadeira com os irmãos e só assim regressava à cama descansada.
Talvez na vida, quando as memórias empurram o presente e ocupam os dias de quem lentamente envelhece, quem tenha muitas e muito intensas inevitavelmente enlouqueça. Uma a uma conseguem-se enxotar. Mas não todas. Não continuamente. A mãe louca e nua a correr pela aldeia. A trazer-lhe de bandeja uma culpa não identificada, uma visão deturpada do que poderia ter sido “se ao menos”. As irmãs com 13 filhos, o casamento arranjado, os bebés que lhe fugiram antes de gatinhar. Repetia para si e para quem a ouvisse, entre costuras tortas, a sua história.
Assim se aproximou do fim, coração aberto, desventrado a todas as pequenas falhas que nos prendem à condição humana, que nos ancoram à terra. Berrou em cada dia numa voz lenta de louca pormenores tão particulares como. Como o lençol que bordou para o primeiro filho. Como a primeira palavra que leu à custa dos serões passados sozinha a decifrar um alfabeto hostil e desconhecido. Pormenores tão particulares que na sua voz repetidos à exaustão se tornaram a cortina do seu acto final. Ela desapareceu entre as suas memórias, ficou de si um linha por enfiar na agulha “quem me dera ainda ter a tua vista filha” e uma inquietação de bicho enjaulado. Foi isso que ficou. Isso e um amargo na alma, da ausência de doçura que a loucura traz, da falta de paz, da perdição que se sente quando as paredes rodam e os relógio se atrasam nas nossas costas

Palavras chave para os motores de busca de quem ela foi, que surja em resposta ao seu nome o seguinte ou que surja o seu nome resposta ao seguinte: amargo na alma, doçura imensa perdida, bicho enjaulado, linhas desencarrilhadas.

1 Comentário

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One response to “Saudades dela

  1. Mad

    Fantástico. Até parece que comecei a ler-te hoje. Se calhar quem está diferente hoje sou eu.

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