einmal ist keinmal

Vou reconhecendo a custo, a maturidade exige este processo de fazer as pazes entre o que achávamos ser e o que realmente somos, que sou estranha a novidades. Meio porco-espinho, sou aos primeiros contactos mera observadora, um bocadinho esquiva, antipática,  há que assumi-lo. Seja com pessoas, músicas, roupas, lugares, os afectos crescem lentamente em mim com a permanência ou com o regresso. Gosto de voltar aos sítios que amei (nunca hei-de voltar a Londres sem voltar à Liberty ou à Royal Opera House, mesmo que à custa de omitir a descoberta de novos locais), gosto de ouvir pela milionésima vez a mesma história da boca da mesma pessoa (por isso sorrio satisfeita em vez de acusar ” ja me contaste isso mil vezes”), de percorrer ruas e recordar as sensações que nelas vivi, de sentir como os locais ficam manchados pelas vivências, saber que uma pequena aldeia sem graça será sempre o local onde virei páginas da minha vida e permiti a medo a escrita de novas prosas, de saber que aquela pastelaria ao pé da igreja encerra tantas madrugadas  ébrias e fins de tarde preguiçosos com o mundo pela frente que lá um palmier terá sempre a matiz de sabores mais rica de todas, gosto das piadas que só fazem sentido entre amigos de longa data, dos rituais de jantares ou cinema ao dia tal. É uma especie de autismo emocional, como que repetir um abraço sobre mim mesma para fingir que o mundo é um sítio previsivel e familiar. Mas não é.

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